O Último Assento do Ônibus Noturno
Existe um tipo de solidão que não dói. Aquele que você escolhe. Quando o ônibus esvazia e você finalmente pode sentir o peso do dia cair dos ombros.
É nesse momento — entre uma parada e outra, entre o que foi e o que ainda não chegou — que você se encontra. Não como quem procura, mas como quem finalmente para de fugir.
O ônibus noturno tem essa magia cruel: ele não te leva para lugar nenhum que você não já estivesse dentro de si. As luzes da cidade passam como memórias aceleradas. Cada poste é uma decisão que você tomou. Cada rua escura é uma porta que você não abriu.
E ali, no último assento, você finalmente admite: a solidão não é ausência. É presença de tudo que você carrega em silêncio.
Tem passageiros que durmem. Outros olham pela janela como se estivessem procurando algo que perderam. E tem aqueles que, como eu, simplesmente existem no espaço entre um ponto e outro.
Eu não sei onde esse ônibus vai parar. Mas sei que, quando chegar, eu vou descender diferente do que entrei. Porque no último assento, entre o barulho do motor e o silêncio da noite, eu me encontrei. E encontrar a si mesmo, mesmo que por pouco, já é viagem suficiente.
